Senso de justiça, até quando?


Minha neta de nove anos tem um notável senso de justiça. Com frequência percebo nela..


Minha neta de nove anos tem um notável senso de justiça. Com frequência percebo nela indignação com os mais diversos temas: a negativa de Trump em colaborar com os acordos internacionais em prol da redução dos gazes poluentes; com o ditador norte-coreano pelas restrições ao seu povo e as loucas ameaças de desencadear um conflito mundial; com os recreacionistas do hotel quando não fazem cumprir à risca as regras do jogo, deixando passar trapaças de crianças e (pior, segundo ela) dos pais participantes de alguma atividade com os pequenos; dos amiguinhos quando não respeitam a vez do outro; quando fazem críticas maldosas aos colegas; do motorista que não respeita as leis do trânsito; do espertinho que fura a fila; das impensáveis malas de dinheiro desviadas para a corrupção. Das milhares de crianças que morrem de fome enquanto o mundo desperdiça tanta comida. Tudo isto povoa a mente dela.

Não, não, não! Valentina, minha neta, não é perfeita. E já incorreu em pequenas injustiças também. Mas é claro, para nós da família, que a essência dela é pelo certo e pelo justo. Seus discursos neste sentido chegam a ser inflamados, cheios de argumentos e indignação.

Outro dia, quando foi almoçar conosco em outra cidade, percebeu, durante o almoço, que o avô estava tomando uma cerveja, e logo se colocou em argumentação para que a avó voltasse dirigindo. “Para que existem as leis, se não é para cumprir” – questiona Valentina de forma incisiva.

Poisé! As crianças, conforme o meio em que vivem – família e escola – e talvez de acordo com algo muito pessoal e inexplicável que trazem consigo ao nascer, podem ter a melhor das intenções e os mais nobres conceitos diante deste nosso velho mundo cheio de vícios, de egoísmo, de desrespeito. Mas serão submetidas a duras provas. E não precisa ser um grande líder mundial para servir de mau exemplo e inspiração nefasta. Basta furar a fila do mercado, oferecer propina a uma autoridade, buscar privilégios pela condição social, jogar lixo no ambiente coletivo que se busca preservar, mentir em prejuízo de outro, trapacear, querer sempre levar a melhor – “porque os outros são menos”…

É muito fácil perder a essência quando se está na contramão da prática comum. Por isto me preocupa o futuro da Valentina e de todas as crianças da geração dela e posteriores. Será que conseguirão segurar o tranco? Será que terão forças para ir contra a maré, feito peixes em piracema, para que possam atingir águas mais serenas e próprias para seguirem, não apenas perpetuando a espécie, mas aperfeiçoando-a de todas estas coisas pesadas e inexplicáveis que estão aí.

Rema, peixinho, rema!

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