Silêncios preservados, por Doralino Di Souza

Tempo Contado

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Di Souza, de Igrejinha.

Silêncios preservados

Quase no mesmo instante em que a campainha ecoou pelo apartamento ela abriu a porta e deu de cara com outra mulher. Aparentavam a mesma idade e ficaram se olhando. Eu telefonei hoje cedo, disse a mulher do lado de fora, que acabara de conferir o número na porta com a anotação feita num pequeno papel. Claro! Sim! entre por gentileza, disse a outra, enquanto fazia o gesto característico de quem autoriza alguém a entrar em sua casa.

A visitante obedeceu, tentando controlar o nervosismo, era ali, uma intrusa. Só não lamente minha perda, disse a dona do apartamento, É patético e desagradável, não aguanto mais ouvir isso. As pessoas não têm noção do que dizem, continuou falando, enquanto ia caminhando, os passos curtos, porém rápidos, a outra a seguia, quieta.  Parentes, amigos e até estranhos falam coisas que não sentem, só porque acham que precisam dizer algo. Mil vezes o silêncio, completou.

A mulher que acabara de chegar nem olhava para os lados, não pretendia levar consigo nenhuma impressão daquele lugar, queria apenas terminar o que viera fazer e voltar para sua vida, bem longe dali. A dona da casa abriu uma porta. Pronto, é aqui, ela falou. Era um pequeno quarto transformado em biblioteca. Enormes estantes atulhadas de livros cobriam três paredes do cômodo. Venha, fique à vontade.

A visitante deu alguns passos devagar. Permitiu que o olhar corresse solto nas lombadas dos livros. Títulos. Nomes dos autores. Cores das capas. Um pouco adiante, viu a escrivaninha, em cima, uma máquina de escrever e um rolo de papiro serviam de decoração. Tinha ainda um caderno de anotações ao lado dum porta canetas e um computador. Quero me desfazer de todos, estou de mudança e não terei lugar para eles, a mulher dona do apartamento explicava, só que a outra já não a ouvia, estava envolta num estranho sentimento que tanto cabia naquela sala, quanto podia transbordar tudo.

Então aconteceu aquele silêncio constrangedor, quando as pessoas querem dizer algo, mas por algum motivo, as palavras não saem. A mulher dona da casa teve ímpeto de perguntar como a visitante sabia dos livros, pois ela não comentara com ninguém da pretensa venda. A outra mulher teve vontade de dizer que conheceu o dono dos livros, que, inclusive, tem exemplares ali que fora ela própria quem os comprara e dera de presente a ele, teve muita vontade de dizer isso, e também da falta que ele fará. Todavia, nenhuma comentou nada.

Depois a mulher dona da casa disse Eu preciso dum café, e saiu. A outra ficou sozinha. Passava a mão sobre os livros delicadamente, como se acariciasse a pele mais sensível, deixando a ponta dos dedos absorver texturas. Pousou a mão sobre um de capa cinza com letras garrafais cor de laranja e pretas. Retirou o livro do meio dos outros. Leu em voz alta: A Festa da Insignificância, de Milan Kundera.  Depois o abriu e leu a dedicatória, numa voz inaudível.

Quem é ao mesmo tempo um intruso e um gentil está condenado, por uma lógica implacável, a se desculpar durante toda a vida, ela prosseguiu lendo, absoluta. Nisso, a dona da casa retornou, segurando dois pires com duas xicaras cheias de café preto, e a outra mulher, com os olhos rasos d’água, não conseguiu completar a leitura. Sentaram-se defronte as estantes de livros, beberam em pequenos goles e em silêncio. Agora já não há nada que precise ser dito.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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