Síndrome da privação


Cláudio passava seguidos finais de semana enfurnado em casa. Batia uma preguiça de sair, contentava-se..


Cláudio passava seguidos finais de semana enfurnado em casa. Batia uma preguiça de sair, contentava-se em assistir à televisão, especialmente aos jogos do seu time. Justificava a clausura alegando que aproveitaria para descartar do roupeiro as coisas em desuso, ou que precisava dar uma passada no escritório para colocar pendências em dia. Muito embora, na maioria das vezes, não executasse nada disso. Tudo era motivo para se acomodar à monótona rotina de ficar em casa no final de semana. Contribuía o fato de não programar um passeio com antecedência, de forma que, na última hora, nada acontecia de especial, no máximo almoçar fora, na maioria das vezes perto de casa mesmo.
Bastou que a esposa quebrasse a perna, ficando imobilizada e indisposta, para que Cláudio, a partir do segundo fim de semana, começasse a ficar indócil. Olhava para a rua e lamentava ter que ficar em casa com todo aquele sol de um dia maravilhoso. Sentia saudade de ir para a casa da Serra, onde raramente tinha paciência de colocar os pés por mais de meia dúzia de dias ao ano. Manifestava falta dos amigos que há tempos não visitava, simplesmente porque não se programava para isso, mas que agora desejava ver com urgência. Sentia-se preso, solidário à esposa, mas era uma privação que ele mesmo se impunha. Não raro a esposa o incentivava a fazer sozinho algo que o animasse, mas Cláudio não arredava pé. Lamentava as limitações nos finais de semana, e a rápida chegada das segundas, que traziam de volta a rotina de trabalho.
Como, em geral, pernas quebradas se recompõem, depois de algum tempo a esposa estava recuperada, ansiosa por um programa diferente no final de semana, depois dos tantos dias de resguardo. Foram almoçar fora, perto de casa, como o marido sugeriu.
No fim de semana seguinte, o marido não quis sair porque tinha decisão do Campeonato Gaúcho. Ele precisava secar o adversário e torcer pelo próprio time. Já é muita coisa para um homem só.
E no terceiro fim de semana, o marido estava de mau humor porque deixara acumular o trabalho no escritório, e precisava ficar em casa se penitenciando porque a segunda-feira seria de lascar.
A esposa subiu no salto, coisa que agora já arriscava fazer novamente, maquiou o rosto, colocou uma roupa bonita e foi ao cinema com uma amiga. Ainda fizeram umas comprinhas e fecharam o domingo com um lanchinho frugal. Já passava das 19 horas quando chegou em casa, com um Mc’ Donalds já frio, que o marido engoliu inteiro, assistindo ao Faustão, e passado de raiva com a derrota do timão.


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