Sociedade dos pombos, por Rafael Tourinho Raymundo

Leia a coluna do jornalista Rafael Tourinho Raymundo no site do Jornal Panorama.

Sociedade dos pombos

O princípio do pombo enxadrista talvez seja uma das melhores ilustrações para nossa sociedade. Segundo a sabedoria contemporânea, não adianta discutir na internet. É como jogar xadrez com um pombo. Por mais que você estude uma estratégia, calcule possibilidades e realize um movimento certeiro, o adversário ignora seu esforço. Ele infla o peito, sobe no tabuleiro, revira as peças e ainda sai voando, soltando arrulhos de vitória.

Pombo é bicho traiçoeiro. Você se compadece da pobre ave, joga pedaços de pão para alimentá-la, e como ela agradece? Na primeira oportunidade, defeca na sua cabeça. Nunca espere gratidão de um pombo.

E nem é culpa da criatura. O cenário é que não ajuda. Na natureza, pombos até têm serventia. Eles comem insetos e grãos; colaboram para eliminar pragas agrícolas e semear lavouras. Porém, no ambiente insalubre das cidades, é bem provável que encontrem alimento apenas no lixo. Nesse caso, podem contrair microrganismos patógenos, tornando-se vetores de doenças. As fezes dos pombos transmitem meningite, salmonelose e a tal da criptococose. Melhor ficar longe.

Outra máxima da internet é enfática: não alimente os trolls. Tratam-se daqueles usuários que estão lá apenas pela zoeira. O pesquisador David Auerbach, ao observar o fórum on-line 4chan, chegou a conhecê-los. Nesse território, uma mensagem possivelmente será ironizada, parodiada e usada para o deboche. Não dá para esperar discussões a sério. Toda argumentação servirá de combustível para os trolls, que se resguardam por trás de pseudônimos ou perfis ocultos. Sob o véu do anonimato, pode estar qualquer ser: um velho, uma adolescente e até um pombo.

Não alimente os pombos. Nem acredite em tudo que lê nas plataformas sociais. Do outro lado da tela, altas são as chances de que haja um pássaro zombeteiro. A página do Facebook que publica memes sobre política pode ser administrada por um pombo. O zap que sua colega encaminhou, falando da mais nova dieta milagrosa, provavelmente foi escrito por um pombo (quem come lixo se sujeita a tudo, né?). Inclusive este colunista talvez seja um pombo disfarçado.

A verdade é que nos julgamos muito civilizados, mas estamos aí, procurando alimento em lugares tóxicos, cagando na cabeça dos outros e derrubando os peões do xadrez para continuarmos com nossas convicções. Tem pombo vetando autora em Feira do Livro porque a obra continha palavrão. Tem pombo disseminando fake News no grupo da família (enquanto o bando inteiro aplaude). E o que dizer de Brasília? A capital federal está mais para pombal nacional. É ave pra tudo que é lado. Quanta pena.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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