Sonhos à beira da estrada, por Doralino Di Souza

Leia o conto da quinzena do escritor Doralino Di Souza, de Igrejinha.

Sonhos à beira da estrada

Não ficou sob o telhadinho do ponto de ônibus, lá estavam a Vera e a Jacinta, as duas já a expulsaram mais de vez. Preferiu encarar a garoa. Permaneceu de pé, por um tempo, a aragem fria escorrendo no rosto, depois, sentou-se na pedra, seu lugar de outros dias. Retirou o celular do bolso da minissaia, começou navegar na internet, mas logo desistiu. Não carregara a bateria, não dá pra bobear, vai que precisa chamar ajuda, ou o Fagundes resolve ligar querendo saber onde está ela. Ou se pode ir buscar alguma grana.

O chuvisqueiro vai engrossando até virar chuva fria. Que droga, ela pensa, é pra já que o nariz começa a escorrer. Abraça o próprio corpo, encolhido na tentativa de proteção. Escuta seu nome. E de novo. E outra vez. Ergue a cabeça, olha para o lado. O chamado vem da casinha do ponto de ônibus. Vê o aceno de Vera e Jacinta. Não desdenha nem mostra orgulho. Corre para lá. O corpo quase molhado.

Sorri e diz opa, as outras apenas sorriem e voltam ao que estavam fazendo, ou seja, Vera volta a passar esmalte cor de vinho nas unhas dos pés e Jacinta volta a mascar chiclete e olhar os carros que cruzam a rodovia. As duas estão sentadas sobre a tábua que serve de banco, que vai de uma extremidade à outra do cubículo feito de tijolos pintados com cal e onde está escrito “A Prefeitura cuida dos seus”. Ela também se senta sobre a tábua. Ficam em silêncio. A chuva aumenta, jogando respingos dentro da casinha. Como num movimento ensaiado, as três recolhem os pés para cima da tábua, deixam os braços em volta das pernas, os queixos apoiados nos joelhos, os olhos num horizonte que ultrapassa as duas pistas de asfalto e se perde em potreiros que gradativamente estão sendo cortados em lotes de terrenos para um novo loteamento.

Então Jacinta diz que em dias assim sente saudade dos bolinhos de chuva que sua falecida avó, com quem fora criada, fazia, ela adorava comer os bolinhos antes de ir pro colégio, e aquele foi o melhor tempo de sua vida. Depois se cala. Vera comenta que em dias assim gostaria de ficar dentro dum abraço por tempo indeterminado, ganhar flores e mimimi do homem que em algum lugar espera só por ela. Depois também se cala. As duas mulheres que falaram olham para a terceira que não havia dito nada e ficam esperando algum relato. Alguma pista de vida normal bem longe da vida que elas levam. A outra diz que em dias assim gosta de andar na chuva, de voltar a ser criança e acreditar que todos os sonhos ainda estão ao alcance das mãos, depois ela levanta e sai caminhando à beira da estrada. A chuva cai refrescante. Um carro para ao seu lado, o homem dentro do veículo sorri, meio sem jeito. Ela tem um minuto pra decidir se continua sonhando ou volta à realidade.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
[Leia todas as colunas]