CONCURSO LITERÁRIO 2018

Sonhos ao Amanhecer | 1º lugar – Conto

Confira o conto de Doralino Souza da Rosa, vencedor em primeiro lugar em sua categoria no Concurso Literário Faccat/Jornal Panorama.
Foto: Pixabay
1º lugar – Conto
Título da obra: Sonhos ao amanhecer
Pseudônimo do autor: Daniel DuConto
Nome Completo do autor: Doralino Souza da Rosa
Idade: 49
Cidade: Igrejinha

Sonhos ao Amanhecer

Daniel DuConto

Era outono. Do alto da coxilha, Boaventura esperava solito. O dia, recém começando, guardava umidade nas macegas, tingindo de frio as roupas do sujeito. Chegou fazia um tempinho. Enfiado no meio do vassoural, negaciava a estradinha lá embaixo. Aos poucos, a luz ia clareando por completo o rosto de homem maduro e curtido do sol, que se mostrava numa dureza franca. O chapéu caído nos olhos. Olhos que pareciam sempre de porre. Todavia, eram olhos vigilantes no movimento pelo qual ansiava. Ajeitou a espingarda entre um mourão e um toco de árvore. Inclinou-se. Franziu a testa. Ia acender o palheiro, consolo de sempre, só que o brilho do fósforo poderia denunciar esconderijo, não se atreveu; em vez disso, arrancou um capim da grama e o levou à boca. Ficou mastigando-o. Decerto está quase na hora, pensou, é no cedinho que a pessoa deve cruzar essas bandas. Isso, somente isso, haviam lhe dito sobre o tal que deveria morrer. Boaventura fazia gosto para que o paisano de morte encomendada fosse gente ruim. Algum taura parido e largado nesse mundão de Deus, que não deixasse mãe chorosa nem filho jurando vingança. “Tomara não ser parteira, nem fazedor de reza braba, pois desses o mundo carece. Melhor se for político, ou capataz lambedor de botas, que aí, bala nenhuma é desperdício”.

Ouviu grito dum quero-quero e correu o olho, por cima do cano do rifle, para a trilha lá embaixo. Era falso o alarme. Não surgiu ninguém na curva da estrada, ladeada pelas taipas de pedras, que cortava o potreiro. Boaventura meio que foi se enervando. Não gostava da espera. Nem do pensamento vadeando, perigava causar distração na hora do tiro. Como da vez quando errou disparo dado como certo. Precisou terminar o serviço com um punhal. O olhar daquele fulano implorando piedade o acompanhou por várias noites, até que as canhas e a lida consumiram com os recuerdos.

É bem verdade que o Boaventura sonhava com uma vida mais direita. Queria ter um pedaço de terra, um gadinho, mulher pra fazer agrados, filhos. Ia ser bonito ver dois machinhos crescendo com saúde. Ter um povo seu pra dividir chimarrão e apequenar solidões. Também gostaria de entrar na capela sem medo nem culpa. Sonhos desse naipe são ilusão boa, dizia, pra, em seguida, se dar por vencido: “Mas quem governa os sonhos e a vida da gente é o Patrão Velho lá em cima”.

Olhou pro céu, as estrelas desaparecendo na transformação da noite em dia. Já se ouvia os sabiás cantadores e o revoar de um ou outro pombão. Daí, escutou o tropel. Mais e mais o tropel. Boaventura destravou arma, apontou com firmeza no vulto a galope lá embaixo. O tempo liso da espera acabou. Daria um disparo só. Serviço limpo, bem feito, e, antes da noite voltar, estaria num povoado longe. Quando fez mira derradeira, enxergou melhor e sem sombra de engano: era um gurizote. Pouco mais do que um piá e levava na garupa uma guria. Vinham num troteado firme. Cabelos e olhares soltos, campeando sina. Numa faceirice só. Dava até pra ouvir as risadas. Ele agarrado nas crinas do baio, e a guria agarrada na cintura dele. Como quem se agarra ao sonho que virou verdade, lhe pareceu. Creio em Deus Pai, murmurou Boaventura, o gurizote façanhudo roubou a guria. Agora fugiam aqueles dois.

O Boaventura se acostumou a não ter coração mole pra esses acontecimentos mais caprichados, não se dava às conversas alongadas e misteriosas da vida, era só um homem cumpridor de ordem. Ele virou a cabeça para o lado, cuspiu a saliva esverdeada pelo capim mascado, depois voltou a fazer mira no peito do guri, no entanto, sem saber o porquê, sentiu uma estranheza lhe percorrer o corpo. Uma confusão lhe tomou as ideias. O gurizote lhe pareceu apenas um terneiro-mamão querendo ser novilho. Um guacho saltando a cancela do cercado. Sentindo o cheiro de fêmea. Buscando sonho de ganhar o mundaréu longe das estrebarias e do rancho onde se vive. O gurizote lhe pareceu ele próprio. Boaventura pensou nos volteios que o mundo dá. No destino das gentes naquelas lonjuras. Na escassez de sonhos daquelas gentes. Boaventura lembrou-se dos seus dias de gurizote e no quanto sonhou roubar uma pequena rapariga cheia de boniteza e graça. Foram noites a fio sonhando galopar para longe levando a guria junto. Ela comungava do mesmo sonho, dizia. Só que o pai da guria, nem aí pro sonho dos piás, mandou a filha estudar na cidade grande. Quando a rapariga retornou, trouxe a mala abarrotada de sonhos diferentes, e Boaventura achou por bem se mandar mundo afora.

O Boaventura soltou um longo suspiro e, num repente, se aprumou, voltando à sanha do tiro bem dado. “Diacho de pensamento loqueando com essas bobices de sonho. É bem capaz de me fazer desperdiçar o tiro”.

Um estrondo seco ecoou na manhã.