Temperatura agora:   14.9 °C   [+]

Terapia – parte um, por Érica Ostrowski

Terapia – parte um

Tenho falado aqui, muito, em terapia. Fiz questão de deixar claro o quanto foi importante para mim, sempre que precisei recorri a esta ajuda e foram muitos anos com diferentes terapeutas. Depois de um bom tempo sem frequentar um consultório, não dei conta sozinha e foi determinante para minha liberdade da alma. Viva a saúde mental!

Outro dia um casal de novos amigos, lendo os textos, comentou sobre como é, para mim, expor minhas histórias pessoais nas colunas do jornal, e me fez refletir. Minha sensação foi clara, fiquei mais à vontade para mostrar as coisas que ninguém vê, além das que já mostro em textos e mídias, e que também podem ajudar pessoas, a quem sabe, usarem para si, tirarem algum aprendizado. Caso não, o meu compromisso é que tenham uma boa leitura. Sou uma comunicadora com pretensão de escritora, com um livro em construção, e outro na cabeça, uma história forte e real de superação com veículo e um público para as minhas falas, madura e tranquila para tal.

Então aqui vai, em dois ou três capítulos (colunas ), um texto que escrevi no dia que acessei minha “cura” emocional. Onde revelo aos meus queridos leitores o que certamente nem os mais íntimos amigos leram. Um texto escrito com a emoção daquele momento, um pouco mais de dois anos atrás.  Não tenho intensão de me expor, o objetivo é mostrar que todos temos mais ou menos dores a diferença é o que fazemos com ela.

Terapia – O Bolo Bom

Tem um vácuo dentro de mim, um vazio… uma sonolência e um cansaço de fim de jornada.

Olho para rua e a luz do sol está diferente, como em algumas vezes que a vida mudou. Algumas coisas começam a fazer sentido e outras a saírem de mim.

A dor do abandono, do descuido e do descaso é tão algoz quanto à dor da agressão física e tão presente quanto uma segunda pele ou até mesmo um recheio ruim em um bolo bom.

Eu sou o bolo bom, e desvendado o nó cego de uma vida, ocorre esta AUSÊNCIA DE ALGO CONHECIDO, ESTA DOR que desde a infância me acompanhava. Era o mais perto da minha mãe que eu tinha, a dor que ela me causava.

Não foi à toa que me tornei uma mãe dedicada e criei todos muito próximos a mim, não queria repetir nem o erro da MINHA MÃE DOENTE, nem a minha dor. Por mais falha que posso ser e ter sido, estas não chegam nem perto das graves falhas dela.  Por certo para compensar inconscientemente a violência e o abuso psicológico pelo qual passei, pelo qual minha irmã e eu fomos vítimas. Hoje falo de mim. Acessei o núcleo da dor, e dói muito.

Não consigo nem dizer palavras a esta mãe, que sei lá porque, escolhi nascer, esta pessoa que não tinha nem para ela mesma nada a dar e que resolveu acabar com tudo e ainda ficar no patamar de mito de uma época. Ela não foi Leila Dinis, nem tão pouco Elis Regina, mas era desta turma de vanguardistas, que talvez também sofreram muito, minha mãe, incógnita e muito atrapalhada.

Como mãe, que tenho por esta situação o valor total da existência, vou tentar a qualquer momento elaborar o que poderia dizer a ela. Preciso dizer.

Hoje ocorreu uma morte em mim, sei que desta morte terei uma nova vida, onde pretendo pouco a pouco me desfazer de cada sequela, que por pior que seja, fez de mim quem sou. E diferente dela eu nunca me abandonei e confesso ter pensado nisto, em desistir, isto foi muito difícil, mas se eu não valia o sacrifício, naqueles momentos os meus filhos valem sempre. Tentei fazer o melhor e seguir adiante com as forças ou estratégias que me ocorriam. Só quem passou por isto entende a força que isto demanda. Recebo elogios e referências a ser uma guerreira, nunca acho que foi tanto assim, hoje neste caso, passo a entender que fui mesmo. Foi uma luta. (continua semana que vem).

Instagram @ericaimagem
Face Érica Ostrowski