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Um Shiva na Júlio

Quem anda pela Júlio de Castilhos, rua aorta da nossa cidade, de repente, entre as igrejas centrais e o Banrisul, se depara com a imagem de uma criatura a ocupar a metade de um grande portão. Ela é azul, está em trajes estranhos, e em posição de lótus, segura um tridente e é cercada por elementos vários.

Numa cidade de descendentes europeus, cada vez mais tomada pela diversidade de derivações evangélicas que surgem a cada esquina, aquela imensa figura levanta indagações, e até perturba a muitos, que, com certeza pensam “cruzes, coisa do Mal”. Até eu tinha certo receio. Mas tal ser, que em parte inspirou os avatares de James Cameron e o Dr. Manhatan de “Watchmen”, e tem a cor de certas entidades búdicas, é o Shiva. Mas quem é o Shiva? Cara, vá ao Google. Tá bom. Você não lida com a internet.

Shiva, o destruidor, é parte da suprema trindade hindu (da Índia) junto com Brama e Vishna, respectivamente, criador, mantenedor – todos unidos naquele mistério de serem ao mesmo tempo distintos e inseparáveis, assim como a trindade do Cristianismo. O que temos ali, naquele meio portão, não é um deus que devemos adorar, e que nem pede isso, da mesma forma que não pede sacrifícios. Shiva é simplesmente a representação de uma energia primordial, elementar, assim quando vemos Deus ilustrado em formato corpóreo.

Na real, o “destruir” de Shiva é no sentido de construção de algo novo, no caso, o desafazer para renovar, transformar. As primeiras representações dele datam de 4 000 a.C. A criação do ioga – prática que produz grandes benefícios físicos, mentais e emocionais, intimamente ligada à transformação – é atribuída a ele. Quanto ao tridente, símbolo antigo de poder, suas três pontas representam as três qualidades da matéria (existência, movimento, equilíbrio), também o passado, o presente e o futuro; e a própria trindade hindu. Então, são tudo símbolos a serem interpretados.

Assim, torcer o nariz ao ser azul, sentado em lótus, alegando ser ele algo pagão, do mal, ou outras coisas, sem saber mais sobre o assunto, é de uma ignorância sem par, além de ser um desrespeito muito grande para com ideias surgidas bem antes do Cristianismo, adotadas com intensa devoção por uma das maiores populações do mundo, e por pessoas que também nem são naturais da Índia, ideais que se preocupam bem mais com a saúde do indivíduo, e da espécie humana, e com o bem estar das outras formas de vida que conosco coexistem neste planeta único chamado Terra.