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Uma cabana para a Helena

Uma cabana para a Helena

Há alguns finais de semana eu e a Helena, privilegiadas que somos, tenteamos o momento em que o vovô levantou e corremos nos aninhar junto à vovó, na cama deles. – Gostamos dos momentos entre “meninas”, para falar sobre os acontecimentos do dia anterior e rir um pouco, antes de iniciar as atividades. Mas só conseguimos fazer isso nos finais de semana, já que os horários de segunda a sexta resultam em nosso desencontro.

Na cama da vovó, às vezes há disputa para falar primeiro. Mas o espaço é democrático, respeitando, inclusive “a bancada” infantil – cuja Helena representa muito bem. Além de falar, interromper e discordar (algo que aprecia muito nessa fase da vida – risos), Helena também inventa moda e gosta de ser lúdica. Nesse sábado, em questão, decidiu construir uma cabana com a cobertinha da vovó Mari (minha mãe). Eu e a vovó colaboramos, sustentando a “estrutura” com as mãos, enquanto ela se sentou para alcançar a altura ideal e não tornar a engenharia desproporcional.

Foi uma festa! Quando nos enxergamos dentro da cabana, Helena chegou a bater palmas, realizada. Conversamos mais umas palavras e tivemos que apreender fuga, sufocadas pelo calor. As duas permaneceram na cama, se espreguiçando, e eu tive que sair me preparar para assumir o plantão do noticiário. A cena me acompanhou até o banho, e, lembrando agora, ainda me causa arrepios.

Emocionei-me em lembrar quantas vezes precisei que as mãos de minha mãe, minha irmã mais nova, minha avó, tia, prima (cito as mulheres porque nos momentos de dificuldades tendemos a recorrer a quem temos mais intimidade e liberdade e, no meu caso, figuras femininas) sustentassem meus sonhos, planos, e até a vontade de viver. Das vezes que, ausentes, me sustentaram em oração, lutando para que minha engenharia não se tornasse desproporcional a ponto de ruir.

Veio à tona a pauta de tantas conversas que tivemos entre amigas; a importância de sermos unidos; de reconhecermos a necessidade de nos apoiarmos um no outro, e principalmente de aprendermos a reconhecer quando e o quanto dependemos de cada uma dessas mãos. Questionei-me se não seria esse o maior ato de coragem da atualidade: reconhecer-se frágil. Há tanta gente cedendo à loucura, inveja, ciúmes, por não abrir-se na hora certa..

A cabana de cobertas da Helena me remeteu aos costumes familiares, às mudanças decorrentes do passar dos anos, e às consequências do ciclo. Numa breve análise, concluí que os “cases de sucesso” da família (fossem no âmbito afetivo ou profissional) não se desenvolveram sozinhos – mesmo que demonstrando o contrário. Há sempre uma mãe preparando o café para o filho não se atrasar; um pai fazendo economias para a faculdade; uma avó observando os netos para que os filhos cumpram algum compromisso; uma verdadeira máquina, na qual cada engrenagem, por menor que seja, é indispensável.

A cabana de cobertas da Helena demonstrou que as mesmas mãos que nos sustentam numa brincadeira, na infância, são as que nos guiam e fortalecem no decorrer de toda a existência (ou, ao menos, deveriam ser). Assim como os pássaros que, em vez de privarem seus filhotes do voo, os orientam ao céu. Ou como os filhotes que, em vez de saltarem recém-nascidos num voo suicida, recebem o alimento já processado, fortalecem suas asas, para só depois ganhar o horizonte.

A cabana de cobertas da Helena me fez avaliar o quanto somos dependentes, principalmente de Deus. E que, quando compreendemos e admitimos isso, bloqueamos muitos fracassos, além de recebermos o amparo necessário para edificarmos, não apenas cabanas, mas também castelos!

– A propósito, eu e a Helena adoramos castelos! ..vamos pensar sobre..