Uma nova noção de tempo


Desde que minha mãe, com 87 anos de idade, tem enfrentado problemas de saúde, sua..


Desde que minha mãe, com 87 anos de idade, tem enfrentado problemas de saúde, sua locomoção às vezes fica bem comprometida, e tudo na rotina dela tornou-se bem lento. Assim, tenho experimentado um desafio que vai além de agenda médica e controle de medicamentos, coisa que se tira de letra. Para mim, a grande questão está no ritmo necessário para acompanhá-la.

Quem me conhece sabe que sou pilhada, acelerada, elétrica… como queiram. Minha filha Vanessa certa vez disse que devo sofrer de hiperatividade. Um dia ela falou: Senta aí, relaxa e curte o encanto que é a tua neta (então bebê), descobrindo as próprias mãozinhas. Naquele momento percebi que muita coisa bacana me passa batido porque minha mente com frequência costuma estar uma ou duas situações à frente do momento que estou vivendo; ou até matutando sobre algo passado, cujo real significado me escapou na hora certa porque eu não estava totalmente ali naquele momento. Dizem que é o perfil exato do estressado. Não sei não, mas realmente me falta paciência para fazer uma só coisa de cada vez, como me recomendou certa ocasião o colega Alvaro Bourscheidt, quando trabalhávamos juntos na redação do Panorama e o bicho pegava na pressão do fechamento do jornal e demanda de metas comerciais.

Então, esta sou eu tendo que lidar agora com os passos ultralentos de minha mãe, seus movimentos em “slow motion”, sua aparente resignação em cada gesto sem pressa, imposto e não escolhido por ela.

Estou tendo que aprender uma nova noção de tempo para as coisas, o que me faz lembrar que, há alguns anos, tanto minha mãe quanto minha filha reclamavam do ritmo dos meus passos na rua, porque elas não conseguiam me acompanhar. Pasmem! Hoje já não consigo acompanhar os passos enérgicos de minha filha, e tenho dificuldade de me adaptar aos passos plácidos de minha mãe.

E o que me resta? Muito. Ficar feliz com a lucidez de minha mãe, com seu jeito cordato que tudo aceita e de nada reclama, mesmo quando tem dor e várias limitações físicas. Resta agradecer por ter condições de poder retribuir um pouco do muito que fez por mim, pelo apoio de familiares quando a situação aperta, pela ajuda médica que não tem sido pouca, em especial ao carinho de meu marido, que a adotou como mãe, à atenção que dispensam à bisa a minha filha e meus netos Valentina e Henri. E deixe que o tempo imponha seu ritmo!

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