Uma profissão (promissora) para os próximos dez anos, por Jéssica Ramos

Leia artigo da jornalista Jéssica Ramos do Jornal Panorama.

Antes fosse algo novo, mas acontece todos os dias: tenho por instinto observar as pessoas, os comportamentos. Viajo, chego a algumas conclusões e, por vezes, acabo retornando à “estaca zero”. Sou uma canceriana emotiva e curiosa e, desta vez, o que me fez investir minutos do dia pensando foi uma nota de falecimento.

 

As funerárias entregam, na recepção do Jornal Panorama e Rádio Taquara, para divulgação, ou ligam repassando os dados. Não estando em pauta, eu recebo as notas e as encaminho para os colegas no estúdio. Quase nunca me atenho à “história”. Apenas faço o “meio de campo”. Mas, desta vez, corri o olhar sobre as informações e, pronto: não foi uma nota comum. O falecido tinha pouco mais de 40 anos, sem filhos, esposa, ou namorada. “Que vida!” – exclamei em pensamento, e cheguei a olhar em volta para me certificar de que não havia alguém me observando. Ri, em seguida, pensando que só eu mesma para julgar a “vida de um falecido”.

 

A partir disso, foi automático. Os flashes, com respostas diversas à situação, surgiram sem que eu pudesse evitar. “Ah, canceriana!” Fiquei imaginando como é a vida de alguém que vive só. “Sem um par, filhos?” Enfim, lembrei que já havia divagado sobre o assunto inúmeras vezes. E que isso é cada vez mais comum, por mera opção mesmo. Mas, para esta canceriana, ainda estranho. “Imagine chegar ao fim da vida sem ter construído um relacionamento? Ou será que construiu alguns, mas nenhum vingou a ponto de oficializar? Não deixar sequer uma viúva?” – Já havia começado um monólogo.

 

Acabei por assumir uma linha de raciocínio, baseada na falta de investimento nos relacionamentos (considerando, esse, um/o motivo para o término deles). Caí em minha própria teia, como se fosse um inseto. Uma autoanálise. Lembrei-me de quantas vezes, apenas na última semana, cheguei em casa cansada. E, movida pelo mesmo cansaço, ignorei tantas investidas da minha mãe, pai, que apenas buscavam atenção. Um bate-papo sobre os fatos do dia. Eu só me rendi à minha pequena ogrinha. Minha filha.

 

Assumi, também, minha parte nos términos dos meus relacionamentos afetivos. Lembrei-me de quantas discussões alimentei por motivos fúteis, falta de compreensão e, ou, simplesmente interesse. Falta de empatia. Algo que aconteceu de ambas as partes, afinal de contas, já dizem que um relacionamento nunca é uma via de mão única. “Mas que cacetada é essa? Um problema das relações modernas?” – A indignação me definiu. Percebi que 90% das minhas insatisfações partiram, justamente, do mesmo ponto: quando me senti ignorada, desvalorizada.

 

Flashes e mais flashes me transportaram a situações distintas, porém, envolvendo o mesmo tema. “Um relacionamento pode atrasar o sexo, ou adiantar. A maioria das pessoas faz (sexo) logo nos primeiros encontros por que sente que o interesse, a atenção mútua, diminui no decorrer dos dias. É mais uma forma de recuperar o sentimento inicial” – disse um amigo, outro dia. “Eu não suportava o jeito que minha ex agia comigo. Quando queria falar sobre ela, a rotina dela, eu servia bem como ouvinte, já quando eu queria falar, ela ignorava. Aí não funciona muito bem” – disse outro conhecido que, logo em seguida, repetiu a operação comigo. Mas, dessa vez, eu fui a “vítima” (ignorada).

 

Finalmente, juntei os fatos ao resultado de uma pesquisa que li no portal de notícias G1. Na verdade, uma projeção, baseada no comportamento e tendências do mercado mundial, de 21 possíveis profissões que podem surgir no decorrer de cinco a dez anos. “Profissões do futuro”. “E não é que eu não estou louca em demasia?” – Ou isso, ou esse especialista britânico, Bem Pring (responsável pela análise), corresponde à minha loucura.

 

Ocorre que, mesmo atendendo a áreas distintas do mercado (tecnológica, por exemplo), todas as profissões partiram de um mesmo pilar. E este, por sua vez, obedeceu a uma necessidade um tanto retrógrada (considerando que trata sobre profissões do futuro): o contato humano. E olha que não sou que estou dizendo.

 

Mesmo com tanta tecnologia, praticidade, máquinas não substituem o homem (em tudo). E, irônico ou não, a mesma tecnologia que nos liga, nos remete (ou contribui) a hábitos que acabam por nos afastar. Porém não substitui nossa capacidade de pensar, expressar e, menos ainda, de ouvir. Pior do que isso, não supre a necessidade do afeto, do sentir-se admirado; apreciado; querido. Talvez, e agora com dados que embasam minha teoria, esse seja o real problema das relações modernas: a falta de tempo para o outro; o egoísmo. Talvez a pessoa seja incrível, e você é que não tem investido energia, interesse suficiente, para descobrir isso.

 

Enfim, passada a análise da “vida do falecido”, meu medo migrou para outra questão: haverá um dia em que reaprenderemos a ouvir, doar, investir nosso tempo e vida para o outro, tal como esperamos que nos faça? Ou esperaremos que nossa demanda se torne rentável? A ponto de figurar “uma profissão do futuro/presente?”.

Jéssica Ramos
Jornalista de Taquara