Uma sociedade de aparência, por Cassi Gottlieb

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Leia a coluna de Cassiano Gottlieb sobre a acessibilidade no site do Jornal Panorama.

Uma sociedade de aparência

Essa semana eu li um texto de Facebook de um cadeirante de Manaus, no qual ele mencionava que por algum tempo ele lutava contra a condição de cadeirante. Na busca desenfreada em sair daquela condição, o rapaz não conseguia enxergar o quanto a vida independente disso, oferecia coisas maiores, nas quais ele com o tempo conseguiu perceber.

Uma limitação em determinada ação, fortalece outras características, que atuam em forma de compensação. Mas de forma objetiva, o que a dificuldade física restringe na vida?

A primeira restrição é a de autoestima. Se o ser humano não tiver uma estrutura emocional muito forte, é quase impossível não ser afetado. A sensação é de sempre estar correndo atrás, tendo que provar mais que os outros, sentir que eventuais reconhecimentos são méritos próprios e não formas de diminuir uma tristeza que muitos imaginam você sentir. Aliás, essa é uma angústia universal. O medo do que o outro pensa de ti, consome muito do teu tempo. O grande remédio para isso é o desafio. Estar sempre atrás de algo que mostre que o eventual elogio não venha por simpatia ou pena. 

Sim, por mérito. E o indivíduo quando faz algo bom, que sabe que fez a diferença para alguém, percebe o retorno nesse sentido. E isso é a melhor sensação do mundo.

O segundo ponto que causa muito desconforto, é o medo das pessoas em se envolverem em alguns aspectos, como sentimental, com realidades diferentes das que elas estão habituadas. O que a sociedade vai dizer, o medo do tipo de trabalho físico que podem ter em uma relação nesse sentido, a desinformação muito mais vinda de preconceito. A vida amorosa de nós humanos está aí para provar. Existe receio em abrir uma relação dessa natureza, mas não ocorre o mesmo em relação a pessoas que traem, que enganam, que estão com alguém só pelo que pode ser oferecido naquele instante, pouco ligando para os sentimentos da outra pessoa. Existe diferença sim, não podemos negar.

O fácil atrai mais, a capa do instante. Talvez por isso exista tantas pessoas se sentindo infelizes no mundo. E quem tem mais dificuldades, por tentar ser diferente, por ter sentimentos, pode ter certeza que infeliz não é. Mas também não é confortável. Afinal, apesar das limitações de cada um de nós, todos queremos a mesma coisa. Talvez ainda não descobrimos o caminho certo de conseguir.

O terceiro ponto é a interação social, essa é menos difícil que a amorosa. A receptividade é muito maior, mas também não é fácil. Existem atividades muito legais, que nem todos podem fazer, mas aí tudo bem, até porque todos não gostam de uma única coisa. Por isso existem as afinidades, nas quais dentro de uma amizade cada um se adapta ao outro.

Esse fator está muito ligado ao da autoestima. Existem pessoas maravilhosas no mundo, mas é preciso estar com o coração e a mente aberta para receber elas. O que vai manter elas por perto, é o que você cativar nelas. E isso não tem limitação nenhuma que impeça.

A vida é assim mesmo. Longe de ser um mar de rosas, nunca vai ser. 

Mas dá para ser mais feliz, né. Sempre dá.

Se tu olhar bem com o coração, o essencial fica invisível aos olhos.

Por Cassiano Gottlieb, de Taquara
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