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Utilidade pública, por Plínio Dias Zíngano

Do “Meu cinicário” – Nem toda traição é perpetrada por dinheiro. Muitas vezes, é, somente, por vaidade ou pirraça. Mas prova, sempre, uma grande falha moral.

UTILIDADE PÚBLICA

Trabalhei em publicidade durante 24 anos. Aos bem atilados, ressaltará a falta da palavra “propaganda”, depois de “publicidade”, uma vez que, usualmente, aparecem juntas. Mas tenho uma explicação (a gente sempre tem). Existe falta de consenso, mesmo entre os mais marcantes autores da área, sobre as diferenças entre esses dois conceitos. Isto significa que nunca estarei escrevendo uma sandice ao optar por uma das definições ao declarar em qual das especificações desempenhara funções profissionais. As duas atividades envolvem a comunicação de algo ao respeitável público, embora as mensagens nem sempre sejam respeitáveis ou o público idem. Na minha área laboral, o objetivo era vender produtos para consumidores, fossem eles clientes comerciais, industriais ou de serviços. Quer dizer, nela circula o dinheiro e o processo se encerra, quando há uma venda, indicando o sucesso da empreitada. Após esse fechamento de negócio, o vendedor já está pensando no próximo.

Na propaganda, a coisa é mais sutil. “Vendem-se” ideias, crenças, comportamentos, ideologias. O objetivo das ações deixa de ser o lucro. Pelo menos, não a curto prazo. O dinheiro é como um iceberg: dele, aparece pouco, dando a impressão de inexistência da maior parte. Nessa divisão, criei, apenas, uma campanha e, mesmo assim, ela não foi executada por falta de… dinheiro. O cliente era a FEBEM-RS, sendo então seu presidente o Professor José Francisco Sanchotene Felice. Depois a entidade foi transformada em FASE/RS, já no ano 2002.

Não estou contando isto para fazer currículo (seria um currículo do nada). O objetivo é fazer comentário sobre a situação vigente em função da pandemia da COVID-19. Nestes dias de duras restrições aos negócios, vendas em recesso por força legal, a publicidade, tão cruamente monetária, cede lugar à propaganda, a bondosa madrinha que ajuda, ensina, salva. Um dos seus pontos culminantes é a utilidade pública. Os anunciantes entenderam a oportunidade e estão agindo. Seu propósito passou a ser dar guarida aos desvalidos, em campanhas benemerentes. E foi criada a utilidade pública com patrocínio. A televisão tem explorado a fundo esse nicho, indo quase ao extremo com avisos que deveriam ser de interesse das pessoas, veiculando, sub-repticiamente, toda a sorte de produtos, de maneira a justificar a sua bondosa e lucrativa participação no cuidado com a saúde do povo.

Na verdade, não acho correto como o assunto está sendo tratado pela mídia.

Por Plínio Dias Zíngano
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