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Vento Negro, por Luiz Haiml

Vento Negro

  No exílio involuntário, ao qual muitos de nós, sem muita escolha, aceitamos-precisamos ficar detidos, comecei a mexer no armário dos cds parados. Houve um tempo em que me botei a montar antologias, então, na minha cdteca aparecem cds com temas principais de filmes, temas de séries, cds com músicas que gosto  de épocas diferentes,   sejam essas aqui do nosso pais ou estrangeiras.

   Num dos últimos dias da segunda semana em que a quarentena começava aqui em Taquara – iniciou em março e agora a vida não tem mais datas nem horas e tudo parece um sonho estranho e sem fim – botei um desses cds  – uma coletânea de músicas aqui do Sul, mais especificamente do pessoal aqui da região da Capital – para tocar no dvd ligado a tv.

   É um cd heterogêneo no qual você escuta estilos diferentes gravados de forma aleatória para não sobrecarregar o ouvido apenas com um só estilo. Assim nele tu passas de Almondêgas a Cachorro Grande,  de Nei Lisboa  a De Falla, de Nelson Coelho a Bidê ou Balde, de Fogaça  a Replicantes, de Nei van Soria a Bandaliera,  e assim vai. Precisas conhecer os gravados com as músicas da velha rádio Caiçara.

   Mas voltando aos trilhos do tema desta crônica, quando escutava tal cd, estava eu no quarto de minha filha, ajudando-a nas tarefas de aula enviadas agora, pela professora, pelo whats. Moramos no alto, na frente da mesinha onde ela faz os temas há uma janela que se abre para um belo panorama da nossa cidade. Quando chegou a parte de ela ter que fazer sozinha, eu me pus a olhar pela janela. Apesar da fantasmagoria imposta pela pandemia, o dia estava lindo. 

 O sol decidira não ser tão inclemente, assim a temperatura estava agradavelmente amena, e as cores, tanto da natureza quanto das outras coisas, reverberavam vividamente seus muitos tons. E naquele momento, enquanto eu era enlevado em tal inesperada contemplação, começou a tocar a última música do cd, Vento Negro.

 Então o conjunto de tudo, cenário e música me trouxeram uma grande saudade. Era a saudade de uma outra Taquara.

 De uma Taquara sem muros, cercas, grades. E hoje os muros cortam, as cercam matam, e as grades, que antes tinham função de enfeite, agora trabalham como suas irmãs das prisões. Era uma Taquara em que era possível andar tranquilo por qualquer uma de suas horas, e num tempo em que se respeitava mais os diretos uns dos outros.

 De uma Taquara sem tantas funerárias – com seus variados planos para o nosso além – e farmácias – com suas infinitas prateleiras de remédios  – a jogarem todos os dias em nossas  caras  a nossa suprema fragilidade, ou seja, que nossas pilhas não são Duracell, e que a nossa partida pode  ser a qualquer momento.

Uma Taquara sem criaturas, antes humanas, em restos, carnes e almas em suas últimas agonias, a vagarem por ela como numa série de terror.

 Sim, houve uma vez uma Taquara assim. Uma Taquara com céus de horizontes sem fim.

Uma Taquara idílica que, infelizmente, já se foi, nunca mais será.

Uma Taquara que Eldo Ivo Klain louvou e cantou.

Uma Taquara de um tempo em que Vento Negro era apenas uma música.   https://www.youtube.com/watch?v=32Tuztt4LL0

 LFH. abril – pandemia, 2020

Por Luiz Haiml
Professor, de Taquara
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