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Versos mudos, por Doralino DiSouza

Versos mudos

Depois dum tempo em silêncio claustrofóbico, ela falou: “Os franceses dizem que, quando o assunto acaba, é porque passou um anjo por perto”. Estavam as duas sentadas ao redor da mesa na quietude do bar mormacento. O local era à beira mar e a praia estava vazia naquele horário. A outra lia um livro. Ela continuou: “São espertos os franceses, essa explanação cabalística, meio maluca, serve como gancho para emendar nova conversa”.  A outra retirou o olhar do livro, fechou-o, virou-se para ela e, cheia de afetação, recitou: “A minha alma é um lago escuro de água doente, a tua, eu nem sei se alguém sentiu. Na vida é tudo assim, bem diferente… quando alguém chega é por que alguém partiu”.

De novo, o silêncio e daí ela se levantou, arrancou o livro das mãos da outra: “Tu só sabes recitar essa Lila Ripoll que tanto lês?” Apontou o livro nos olhos da outra, aumentou o tom da voz. “Grande advogada tu serás, lendo essa comunista de merda”. Ficou parada esperando a reação. Agora a voz já saiu gritada, “Depois de cinco anos naquela droga de faculdade, tu tinhas de vir para cá, tantos lugares, mas não, a comunistazinha aí tinha que vir para Cuba, grande bosta essa ilha, nem táxi decente existe aqui”. A outra engoliu em seco. Controlou a voz embargada, pausadamente disse: “Que importa que esta sala esteja fria e eu sozinha, e a noite escura? A clareira se alarga e o que é tangível foge de meus olhos”. O desespero dela aumentou até transbordar. Como dar vazão ao grito que clama por sair? Como gritar, xingar, brigar com quem teima em não se defender? Uma única palavra ela queria. Qualquer frase que pudesse agarrar como escudo. Mas não! A outra usa o maldito recurso do silêncio.  Atirou o livro no colo, saiu sem olhar para trás. Subiu a ladeira. Vai a pé até o hotel e, de lá, pretende ir a Montevidéu ou voltará ao Brasil. “Dane-se! Que se Foda! Até nunca mais, Havana! Tiau, castristas velhacos! Adeus Lila Ripoll!”.

Sozinha, a outra permitiu-se chorar. Chorou copiosamente por tempo impreciso. De súbito, sentiu um toque em seu ombro. Ergueu os olhos. Encontrou a velha senhora vendedora de flores. Conteve lágrimas, disfarçou a tristeza, limpou o rosto no dorso da mão. A velha florista, sem nada dizer, lhe afagou o cabelo por longos e serenos minutos, em seguida, deixou uma rosa em cima da mesa e saiu. A outra acompanhou com o olhar. A velha foi costeando a praia, cabisbaixa e devagar, se distanciando até desaparecer no horizonte. Ao longe, sobre o mar, uma tempestade se formava. Achou por bem ir embora e se levantou. “A vida está prestes a se tornar insuportável.”, murmurou. Nisso, a outra ouviu passos no assoalho, atrás de si, e virou-se.  Ela estava ali. Tinha voltado. E junto o sorriso ainda mais lindo. Não era necessário explicar coisa nenhuma. As duas sabiam o que sentiam, primeiro no contato visual, depois no toque das mãos, depois no abraço apertado e depois no beijo longo cheio de perdão, de promessas e de amor. Um amor feito versos precisos duma poeta imortal. No mar, as grandes nuvens dissiparam-se, anunciando que a tempestade ia embora.

Doralino Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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