Temperatura agora:   8.0 °C   [+]

Vocação/ transpiração

Vocação/ transpiração

Minha “criança interior” jamais me deixa descansar. Fato que me veda qualquer possibilidade de reparar a energia de minha filha que, aos dois anos, literalmente escala as paredes da casa. E quando escrevo “criança interior” é porque, frequentemente, procuro refletir sobre minhas próprias atitudes, e sobre o comportamento das pessoas de meu convívio, com um olhar curioso e atrevido, típico da infância. Confesso que essa é uma das características que mais me distancia de comparações e, consequentemente, a que mais me “meteu” em “ciladas” (risos) e me proporcionou prazer e amadurecimento.

E é pela descrição, fidedigna, e pelo dom de escrever/falar como quem anseia por ser ouvida, que permaneço solteira aos 28 anos de idade (convido-lhes a rir comigo – por gentileza). Mas não apenas por isso, pois assim como me abro com facilidade admirável, me tornando, por vezes, vulnerável, também costumo acreditar em reciprocidade, fazer planos e me dedicar na construção de meu próprio crescimento, sem esquecer-me do outro – do relacionamento. Mas não é assim que funciona? Ou que deveria funcionar?

Tcharã! Talvez, nem sempre. E é sobre isso que meu ser matutou essas duas últimas semanas. Não sobre minha solteirice (essa é uma questão até simples de resolver – risos), mas sobre uma questão maior, aquela que mesmo de forma inconsciente todos nós buscamos responder: afinal de contas, que função tenho eu nesse mundo de Deus? Particularmente, imagino que eu não seja privilegiada em não saber. E, talvez, muitos de nós levemos a vida no exercício de entender.

Mas, o que me preocupa é que muitos levam a vida sem, ao menos, pensar sobre. Concordas? Não julgo, aliás, essa é uma atividade que tenho procurado praticar, com o objetivo de que se torne um hábito: o de compreender, em vez de julgar. Óbvio que muitas vezes vou acabar sendo contrária, mas nem por isso preciso expressar minha opinião.

Em resumo, penso que o fato de assumirmos a lacuna que a questão magna de nossas vidas ocupa, e influencia no curso de nossos dias, seja, por si, um norte. De onde me veio a inspiração? De observar meus passos, escolhas, frustrações, e relacioná-los à minha vocação e transpiração. Isso, considerando que vocação é algo que nasce com a gente, e transpiração é o resultado do esforço que precisamos fazer para desempenhar, ou suportar, determinadas coisas, atitudes, ou pessoas. Aliás, este pode ser um ótimo exercício, inclusive para prevenir o Alzheimer. É ou não é verdade?

Perceba o quanto você tem facilidade para desenvolver certas atividades (vocação) em detrimento de outras que você precisa transpirar para fazer. Perceba o prazer que algumas coisas lhe proporcionam (vocação), e o tédio de outras (transpiração).. Isso pode revelar muito sobre sua vocação profissional e pessoal. Algo extremamente relacionado ao exercício do autoconhecimento. – Nada simples, especialmente para seres que, felizmente, estão em constante mudança.

Até aqui, tudo certo. Saber o que nos aborrece e o que nos motiva não é algo tão difícil. Imagino. Se esforce um pouco mais e busque saber o porquê dessas ações lhe causarem tais reações. – Eu mesma percebo que a maioria de minhas frustrações ocorreu, não porque eu me sentia frustrada de fato, mas, porque eu não atendi a expectativas. E quanto peso dispensável isso representou.

Mas, vamos além? Particularmente, penso que entender tudo isso facilita muito a vida; e responde muitas questões à minha criança interior também. Pois, eis o mais curioso desse enredo: ao pensar a respeito de tudo isso, percebi que muitas pessoas que eu conheço encontraram, na transpiração, o jeito mais prático de alimentarem suas vocações. Pode? Pode! Alguém que, por exemplo, optou por determinada profissão, não por prazer, ou vocação, mas para garantir o bem estar e a estabilidade financeira da família. Alguém cuja vocação é servir e amar. Tanto que transpirar horas no trabalho, tendo como resultado uma família segura e feliz, é algo que acaba valendo cada gota de suor.

Um desejo, em meio a tudo isso? Poder exercer minha vocação, mesmo que via transpiração! Um receio? Que meus semelhantes sejam indiferentes ao mistério de suas próprias vidas, por egoísmo, ou medo, de assumirem suas vocações.

Jéssica Ramos
Jornalista de Taquara
[Leia todas as colunas clicando aqui]