E o pênis, indiferente a tudo, flanava logo acima da maionese, por Inge Dienstmann

Um dia ainda vou levar um papo cabeça com algum(a) nudista praticante. Mas terá que ser dos bem convictos e embasados para saciar meus questionamentos e curiosidade. 

Sim, porque a visita (a convite) que fiz a um centro nudista, há mais de 20 anos, não me trouxe muitas respostas. Tratava-se de uma programação aberta a não praticantes, para apresentar o espaço à comunidade local. Era um “convite familiar”, embora tivéssemos sido chamados na condição de jornalistas, meu marido e eu. E levamos a filha de cerca de oito anos.

Não perguntei previamente, mas, de forma ingênua, achei que a visita guiada, com direito a almoço, incluísse, naquele dia, alguma exceção à indumentária, tipo uma canga frugal por cima da nudez feminina, uma sunguinha nos homens, ou ao menos uma folhinha de bananeira.

Mas nos receberam a rigor, já na recepção. Acostumada a coberturas jornalísticas de impacto, como crimes bárbaros e acidentes brutais, não seria um pênis inerte ou uma bunda mole que nos colocaria a correr. De qualquer forma, eu já havia explicado à nossa filha o que é um centro nudista. Ela segurou a onda, e depois de um par de olhos ligeiramente arregalados, e o rubor que lhe é característico até hoje, ela respirou fundo e enfrentou. Ao desembarcar do carro, ela já tinha adotado, por conta própria, olhar para as pessoas diretamente no rosto, exceto por umas escapadelas eventuais e disfarçadas. Mas, com a facilidade de adaptação típica das crianças, depois de algum tempo já estava interagindo.

De minha parte, para tomar um fôlego, assumi a jornalista e tratei de me acalmar fotografando a natureza morta. Afinal, era importante mostrar aos leitores  o ambiente.

Fotografei árvores, pedras, pássaros, cabanas/moradia (num primeiro momento temendo que alguma porta se abrisse, revelando Adão ou Eva sem que eu estivesse preparada).

Recuperado o fôlego, passei à entrevista com um dos anfitriões “uniformizados”. Ele nos conduziu por toda a área, mostrou a piscina (onde minha filha resistiu ao convite para o banho com os peladinhos), levou-nos ao balneário artificial com areia da praia, onde bundas, peitos e adjacências de todos os formatos e idades tomavam sol mais à vontade do que eu costumo entrar no elevador do meu prédio.

Me senti divertida com o engessamento do meu marido, que não virava a cabeça para acompanhar a passagem da mulher pelada que por nós cruzava, do jeito que ele ainda hoje costuma fazer quando passa de carro por uma moça bonita que esteja pelas calçadas da rua. Acho meio sem noção isso, mas a vergonha é dele! Podia ser pior! Pelo menos nunca o vi virando a cabeça para  checar o traseiro de uma mulher quando, a pé, passa por alguma mais charmosa.

Mas, voltando ao cenário deste relato, chegou a hora do almoço. Era um buffet. Alguns dos nudistas até já haviam enrolado um paninho em volta da cintura, o mesmo que usam como proteção ao sentarem em algum lugar. Mas… um dos praticantes mais convictos foi à mesa como veio ao mundo. Enquanto ele se servia, não pude deixar de sentir um frio na espinha quando seu pênis, que não demonstrava estar motivado a comer algo naquele momento, flanou logo acima, e muito próximo, da salada de batatas da qual eu estava prestes a me servir. Ufa! A maionese passou ilesa pelo instrumento da criatura. Mas, por via das dúvidas, eu me servi apenas dos pratos que ficavam no centro da mesa, atitude que minha filha aprovou e compactuou comigo com uma cúmplice troca de olhar.

(Vale lembrar: texto literário é diferente de jornalismo. Aqui é permitido colorir, ir um pouco além dos fatos e, bem ao meu gosto, com generosas pitadas de humor, porque o dia-a-dia não está para gargalhadas).

Inge Dienstmann
Jornalista, de Taquara
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