Em pleno café da manhã, por Inge Dienstmann

Em pleno café da manhã

Dia desses eu estava tomando café da manhã num hotel em Porto Alegre, quando uma jovem de minissaia me chamou atenção: uma das pernas era constituída de prótese. Ela circulava muito à vontade pelo salão do café, e eu pensei: “que bacana, tão jovem e está sabendo superar um grande desafio que lhe foi imposto”.Quando a observei pela segunda vez, enquanto ela se servia no buffet, minha admiração assumiu uma forma incontida, que reconheço bem quando a sensação toma conta de mim. A moça usava uma bandana enfeitando a prótese. Não bastou a minissaia, ela adotara um adorno, chamando ainda mais atenção para a perna tecnológica. Meu olhar a acompanhou até sua mesa. Estava com uma senhora, que depois soube ser sua mãe. Aliás, logo depois! Foi ela sentar, eu me levantei e fui até sua mesa. Pedi licença, me apresentei, fui recebida pelo sorriso de ambas. Confessei a elas sobre a impactante sensação que a figura e a postura da moça causaram em mim. Cumprimentei a garota pela forma como ostentava sua prótese fashion, e me permiti perguntar o que acontecera com sua perna. Eu imaginava um acidente, ela me devolveu a informação de que tivera um câncer ósseo, que impôs a amputação da perna. Pedi desculpas por minha curiosidade de ofício, e perguntei como foi enfrentar uma notícia dessa gravidade na flor da juventude, uma fase que costuma causar insegurança diante de uma simples espinha no nariz.“Eu logo identifiquei que o importante pra mim era continuar viva, e me pus disposta a enfrentar o que fosse preciso para isso” – sentenciou a jovem, com um amplo sorriso no rosto.Soube a seguir que eu estava “entrevistando” uma blogueira. Dividir sua experiência com as pessoas, em especial com aquelas que vivem situação semelhante, foi a forma que a garota encontrou para fazer a diferença diante de sua própria diferença. A jovem me contou que veio da região central do estado para o processo de substituição da prótese em Porto Alegre.Satisfeita, voltei para a minha mesa. Meu marido, que acompanhou a cena toda de longe, perguntou: O que houve?Um encantamento – respondi.

Inge Dienstmann
Jornalista, de Taquara
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