Hipocrisia, por Plínio Zíngano

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Hipocrisia

“Devo dizer que, do meu ponto de vista, senti que ele era um hipócrita”. Começo o texto, hoje de maneira bem desagradável. Ainda mais, e, principalmente, por reproduzir as palavras de um filho sobre seu pai. Elas foram ditas em 23 de maio de 1998, numa entrevista dada ao jornal britânico The Telegraph por Julian Lennon, filho de John Lennon, famoso compositor, cantor e integrante da maior banda de rock’n’roll já surgida na música mundial, The Beatles.

Pareço ter o coração rancoroso com relação ao alvo da declaração? Calma! John foi meu ídolo na adolescência. Naquela época, as músicas vinham a nós, primeiro, pelo rádio e, depois, pelos discos. Muito economizei para ter os LPs da banda (tenho todos – o primeiro disco comprado por mim, um 33 rotações, foi deles). Mas concordo, mesmo julgando uma coisa muito triste o filho dizer isso sobre o pai.

As coisas ficam mais visíveis, quando tais personagens têm evidência pública acentuada. O importante é eles serem bem sucedidos em suas carreiras e, além de profissionais vencedores, terem sucesso financeiro. Deem uma olhada neles. Quanto maior destaque – hoje, medido com a cotação “seguidores” – mais se sentem no direito de deitar verborragia salvadora de cunho social, mostrando a maneira de consertar o mundo. O constrangedor é ver, entre esses personagens, gente esclarecida, principalmente, nos campos esportivo e artístico, com grande espectro de influência popular. Nada contra consertar o mundo. O problema é esses salvadores sempre sugerirem o caminho a ser trilhado pelos outros, sem o seguir eles próprios. Talvez inconscientemente (vamos dar vênia a esse pessoal), se guiem pela máxima infame “faça o que digo, mas não o que faço”, versão tão canalha quanto “sabe com quem está falando?”. Não abrem mão de nada sobre o que tenham poder. Segundo a cartilha da hipocrisia, seus pertences chegaram a eles por merecimento ou bênção divina e nessa condição deverão permanecer: imexíveis! As conquistas alheias, bem, aí a conversa é outra. Afinal não se faz omelete sem quebrar os ovos.

Mas, ainda citando Julian Lennon: “papai podia falar sobre paz e amor em voz alta para o mundo, mas ele nunca mostrou isso para as pessoas que supostamente significavam mais para ele: a esposa e filho”. O mundo está cheio de hipócritas e, muitos deles, são nossos heróis. Infelizmente!

Por Plínio Dias Zíngano
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