Inversão de valores, por Ana Maria Baldo

Vivemos em uma democracia. Pré-requisito básico para mantermos uma sociedade democrática é a liberdade de expressão, direito constitucional por sinal. Entretanto, e eis aqui o grande X da questão, nossa opinião e nossa liberdade de expressá-la pressupõe também que respeitemos os outros e as leis. Opiniões preconceituosas nesse caso descumprem a lei, e, consequentemente, são crimes. Em 13 de junho 2019, o Superior Tribunal Federal determinou que as discriminações por orientação ou identidade de gênero passem a ser consideradas crime no Brasil.

Essa semana, no Jornal Panorama, vimos a publicação de uma coluna, cheia de “opinião” e cheia, também, de preconceitos. Nessa coluna, intitulada “Um exército pra chamar de meu”, a autora nos fala sobre algumas questões que merecem destaque e resposta.  Primeiramente, gostaria de salientar que nosso espaço de fala é restrito ao que vivemos, somos ou convivemos; sendo assim, falar sobre a causa LGBTQI+ cabe a quem pertence ou vive essa realidade. Não estamos proibidos de nos manifestar ou expor nossas opiniões sobre temas que não sejam nosso cotidiano mas que por algum motivo nos sintamos afim de fazer; porém, nenhuma manifestação de opinião pode ser feita descumprindo a lei.

Claramente vimos que a autora da coluna citada, não tem conhecimento acerca dos temas que abordou. “Pasmem” foi o termo utilizado pela autora para falar sobre a candidatura de Thammy Miranda a vereador. Pergunto: por que a utilização desse termo se qualquer cidadão ou cidadã brasileiro tem o direito de concorrer aos cargos políticos de seu país? “Brincadeira” foi como a autora se referiu à “revolta” e ao boicote feito pelos conservadores à empresa de cosméticos Natura. Transfobia não é brincadeira, é crime, repito.

A autora também descreve o empoderamento feminino como liberdade sexual, pura e simplesmente. Feminismo fala sobre igualdade, sobre ser respeitada e não ter seus direitos violados. Sobre não sofrer violência física, psicológica, moral, ou de qualquer espécie. Sobre não sermos tratadas como empregadas ou como escravas; sobre recebermos os mesmos salários que os homens e, principalmente, sobre termos nossas vidas preservadas. Culpar o desejo de igualdade feminista, pelo comportamento violento e machista dos homens passa longe de ser, sequer, aceitável. Caso não esteja claro, e me parece que não, a luta feminista e o empoderamento feminino existem justamente para que os homens parem de agredir e matar mulheres. Então, justificar o comportamento machista de nossa sociedade diminuindo a luta feminista e a rebaixando ao nível de liberdade sexual é, além de desconhecimento, desqualificar uma luta que defende inclusive a autora citada. Pois, caso as feministas no passado não tivessem lutado, hoje ela não seria alfabetizada e não estaria destilando preconceito por aí.

Quanto ao fato de “oficializarmos toda forma de “amar”, baseados em nossos desejos e fetiches sexuais”; me entristeço e me revolto ao mesmo tempo. Casais homoafetivos se unem pelo amor e não por questões sexuais. Na verdade, mesmo que fosse por simples fetiche, não lhe diria respeito da mesma forma.  Que a autora não aceite e não concorde, tudo bem, é seu direito; mas, o que não é seu direito é desrespeitar o amor e orientação alheias. É o velho “cada um cuida da sua vida”, sendo bem direta e objetiva. A autora fala sobre família como se a única família possível fosse a heteronormativa; há diversas formas de famílias e todas merecem respeito. Nós, homoafetivos, não queremos que a sociedade se torne gay, não queremos que sua família se torne como a nossa, pelo contrário: defendemos o direito de todos e todas terem a família que desejarem ter, desde que haja amor e respeito.

Para finalizar, gostaria de ressaltar que tudo isso que a autora denomina “valores invertidos” na verdade se chamam liberdades individuais. Valores invertidos são outra coisa. Inversão de valores para mim são as ações que, de alguma forma, prejudicam o próximo: a exploração de mão-de-obra análoga à escravidão; a exploração sexual; a retirada de direitos dos trabalhadores e trabalhadoras; a falta de moradia digna e de alimentação para milhões de pessoas; a corrupção; a falta de saúde pública de qualidade; o ódio disfarçado de opinião. Não olhar para essas situações e se preocupar mais com o amor e os relacionamentos alheios do que com a fome, por exemplo, isso sim é valor invertido. Valores vão muito além de moralismo e questões sexuais; trata-se de fraternidade, solidariedade, ética, caráter, honestidade e, principalmente, respeito.

Por Ana Maria Baldo
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