Memórias do exílio 2 (Reflexões), por Luiz Haiml

MEMÓRIAS DO EXÍLIO 2 (REFLEXÕES)

Em teu ventre sem fim, leviatã maligno, labiríntico, e sem saídas, eu me encontro, e mesmo em teu silencio eu ouço teu respirar, mesmo em tua quietude eu escuto teus passos – em zombeteira dança, e mesmo não te vendo sei que estás a nos observar, um único e imenso olho, Cíclope titânico, tirânico, pousado sobre o planeta e nos avisando, qual o corvo negro encimado no busto de Minerva “nunca mais, nunca mais”, e não só eu, mas todos somos agora teus prisioneiros, Anticristo, quem irá escapar de tua marca, e eu digo ao outro “tu tens medo de mim’” e “eu tenho medo de ti’, e meu inimigo continua sendo meu inimigo e quem não era meu inimigo agora o é, e eu digo seja louco, fique louco, hoje nada mais importa, o mundo é mais louco ainda do que tudo, e houve um tempo em que se podia sonhar com a inocência além dos montes, tempo em que também se podia tocar com pureza o ouro lado da luz, e até da escuridão, mas agora as bocas se calam, as percepções se encolhem, se fecham, os olhares se afastam, e tu não comes só a carne, mas a mente e o espírito, e fazes cair as flores e os frutos, a raiz e o tronco, as folhas e os galhos enquanto adentras o inexpugnável castelo, e a mais alta e pontiaguda grade não pode te deter, e vais irrefreável até pelo aço mais maciço, carcomendo as coisas, desfazendo cenários, roendo as almas, e não sabemos mais o que é apenas sonho e o que é pesadelo, borras as tintas da realidade, reescreves o que está nas telas, nenhum dia, nenhuma hora, nenhum minuto ou segundo conseguem te impedir, e segues roubando, indiferente, gêneros, sexos, juventude, sabedoria, deuses e fés, polvo sutil que és, e agora te percebo por entre as muitas árvores da mata em frente a minha casa, na calçada a me vigiar e também  indo para lá e para cá em todos lá embaixo, e nos bem poucos que vez que outra por aqui ainda passam, e transmutado no ar que se espalha sobre tudo, incrustrado em prédios e pessoas, e até nos fantasmas e nas sombras, e assim não haverá quem possa de ti se livrar, estás ao meu lado, sentado aqui comigo, talvez já sejas eu, e o que está nesta página nem por mim tenha sido escrito, mas por ti, que vais fechando a estrada, encerrando a viagem.

Por Luiz Haiml
Professor, de Taquara
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