Taquarense denuncia preconceito e intolerância contra o filho autista de seis anos

A taquarense Vanessa Sanches usou seu perfil no Facebook para denunciar uma situação, segundo ela, de discriminação e intolerância contra o filho, de apenas seis anos. O desabafo, feito na tarde desta quarta-feira (22), ganhou a atenção de centenas de pessoas, e descreveu a rotina e as dificuldades vivenciadas pela criança e os pais, além do episódio de intolerância que aconteceu no último final de semana, envolvendo dois vizinhos do condomínio onde Vanessa e a família moram.


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Vanessa explicou que a família mora em apartamento desde o nascimento do filho, e que em Taquara chegaram a residir em três endereços diferentes, num período de três anos. Destacou que, especialmente, para o filho que é autista mudanças, sejam de casa, ou mesmo de rotina – principalmente sem um mínimo de preparo, como no caso do confinamento imposto pela pandemia do novo coronavírus – são extremamente delicadas.

A taquarense também explicou que, em função da deficiência do pequeno, o menino, assim como muitos outros autistas, tem estereotipia. Ou seja, encontra na repetição excessiva – que segundo Vanessa pode ser através do comportamento motor, verbal ou emocional – uma forma de se ajustar. De acordo com ela, trata-se de comportamentos regulatórios, decorrentes de alguma necessidade da criança (ou adulto) que não está sendo suprida por algum motivo – muitas vezes desconhecido.


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No caso do filho de Vanessa, a estereotipia é motora. Segundo ela, ele corre de um lado para o outro durante horas, parando apenas para beber água ou fazer alguma necessidade fisiológica. Ocorre que, com a quarentena, o movimento da criança – que teve prejuízos relacionados à rotina de acompanhamento da equipe multidisciplinar que ele estava habituado – acabou incomodando dois vizinhos, e a situação, segundo Vanessa, se tornou inaceitável.

Conforme Vanessa, os respectivos vizinhos reclamaram da movimentação da criança no grupo do condomínio, criado no WhatsApp. A taquarense disse que até compreendeu, mesmo tendo percebido o que ela afirma ter sido o início do episódio de discriminação. No entanto, depois de explicar a condição do filho e se colocar à disposição para receber reclamações em particular, Vanessa descreveu que a vizinha não só a ignorou como passou a imitar o barulho da criança, como se protestasse.

“Num primeiro momento não acreditei quando ouvi o imitar dela. Como é que uma pessoa adulta pode ser tão cruel com uma criança autista? Mas na segunda vez que ela o imitou, eu escrevi no grupo de WhatsApp do condomínio que ela ficasse tranquila, pois iríamos nos mudar o quanto antes. Que não tinha a necessidade dela imitar o meu filho, e completei dizendo que de intolerância e preconceito quero distância”, relatou Vanessa.

A taquarense, que saiu do grupo do condomínio e registrou um Boletim de Ocorrência (BO) policial, destacou que considera que estaria sendo negligente caso não tomasse as atitudes de escrever e divulgar a carta que publicou em seu perfil no Facebook. “Existe Lei e ela precisa ser respeitada!”, defendeu ela. Em conversa com a reportagem do Jornal Panorama, Vanessa também destacou que sua atitude se fez necessária, não apenas para defender o filho, mas para conscientizar as pessoas sobre seus direitos e também deveres.

“Que neste momento, de difícil relacionamento social, as pessoas possam ser verdadeiramente caridosas com os outros. E para as demais famílias, que possam viver situações parecidas, não se calem! Temos que resguardar sempre o direito dos nossos. Nós não estamos errados! Errados são
eles, que não aceitam e querem diminuir a importância de pessoas com deficiência! Meu filho vai viver plenamente sua deficiência e não há no mundo quem diga o contrário!”, declarou Vanessa.

À reportagem, Vanessa disse que o esposo está organizando a quarta mudança da família, e que, em virtude de tudo o que aconteceu, ela e o filho estão na casa de parentes. A taquarense também disse que se sente privilegiada, pois tem os recursos necessários para atender às necessidades do filho, e também conhece os meios aos quais recorrer em situações como a que aconteceu no final de semana. Mas, para famílias mais pobres e/ou sem orientação, ela disse que os principais recursos são encontrados junto ao Conselho Tutelar, que, inclusive, está acompanhando a situação da família dela.

Pena de um a três anos de reclusão

Procurada pela reportagem do Jornal Panorama, a delegada, titular da Delegacia de Pronto – Atendimento de Taquara(DPPA), Rosane de Oliveira, explicou que, em tese, o caso vivenciado pelo filho de Vanessa, configura crime de discriminação contra deficiente. Afirmou que não se pode admitir esse tipo de comportamento, independente de ter acontecido em período de confinamento. “Principalmente nesse caso, em que o menino é menor de idade e está formando a personalidade. É inaceitável essa segregação social. Vamos tentar remeter o caso ao Judiciário o mais breve possível”, declarou a delegada.

Rosane também informou que a Polícia Civil já despachou inquérito policial, vai colher depoimentos das testemunhas e partes envolvidas, além de juntar as mídias com todas as conversas descritas por Vanessa. A delegada explicou que a pena prevista para crimes de discriminação variam de um a três anos de reclusão.

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